Casas prontas para habitar em Portugal são 250 mil fora do mercado. Saiba o que significa este bloqueio e como pode impactar o futuro da habitação.
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Autor: Redação
250 mil casas prontas a habitar é o que revela o estudo recente do Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana, que estão fora do mercado, nem disponíveis para venda, nem para arrendamento. Em paralelo, mais de 700 mil imóveis encontram-se desocupados, dos quais uma parte substancial poderia, em teoria, responder de forma imediata à crise habitacional.
Este contraste é particularmente evidente nos concelhos com maior pressão imobiliária, como Lisboa, Porto e Sintra, onde a procura supera largamente a oferta e, no entanto, milhares de habitações permanecem encerradas. A questão não se prende com a inexistência de parque habitacional, mas sim com a sua má afetação, a especulação e problemas legais ou burocráticos que impedem que estas casas cheguem a quem mais precisa.
Lisboa e Porto no centro da contradição
É nas áreas metropolitanas, onde os preços atingem valores historicamente elevados, que se concentram mais casas prontas a habitar mas desocupadas. Lisboa lidera a lista com mais de 21 mil imóveis nesta situação, seguida por municípios como Sintra, Porto e Coimbra. Esta concentração gera uma contradição gritante: há imóveis suficientes para atenuar a crise, mas a ausência de medidas eficazes impede que sejam integrados no mercado.
Em muitos destes concelhos, a média de habitações disponíveis supera a média de agregados familiares. Ou seja, existem mais casas do que famílias, mas estas não estão acessíveis. O resultado é um mercado inflacionado que não reflete a realidade do parque habitacional efetivo.
O impacto das políticas e da especulação
Ao longo da última década, políticas como os vistos gold e a expansão do alojamento local deslocaram grande parte da oferta para segmentos de luxo ou para o turismo. Isso restringiu ainda mais as opções para residentes. Com milhares de casas prontas a habitar retidas como investimento, a especulação imobiliária tomou protagonismo sobre a função social da habitação.
Ao mesmo tempo, a redução do parque público agravou esta escassez artificial. O Estado tem alienado imóveis em vez de os reabilitar e disponibilizar para arrendamento acessível. O resultado é um círculo vicioso em que o preço sobe continuamente, mesmo quando o número de casas em bom estado disponíveis é claramente suficiente para responder à procura.
Sobreoferta ou má gestão habitacional?
Um dos pontos centrais do estudo é a revelação de que Portugal tem, em média, 1,4 habitações por família. Este valor evidencia que não há uma falta estrutural de imóveis, mas sim uma má gestão habitacional. O problema não reside no número absoluto de edifícios, mas sim no destino que lhes é dado.
Cerca de 64% do parque habitacional nacional encontra-se em situação de sublotação, o que significa que existem moradias e apartamentos com muito mais espaço do que o necessário. Em contrapartida, aproximadamente 500 mil imóveis estão sobrelotados, mostrando um forte desequilíbrio na forma como as casas são ocupadas.
Se as casas prontas a habitar fossem integradas no mercado, poderiam não apenas aliviar a pressão sobre os preços, como equilibrar a relação entre oferta e procura, tornando o acesso ao arrendamento ou à compra mais justo.
O peso da sobrecarga financeira das famílias
Mesmo quando existem habitações disponíveis, a questão do preço continua a ser um entrave brutal. Em mais de metade dos concelhos do país, o rendimento mediano não é suficiente para adquirir uma casa ao preço médio sem entrar em sobrecarga financeira. No caso do arrendamento, a situação é ainda mais grave: em 238 concelhos, 77% do total, não se consegue arrendar ao valor médio sem comprometer mais de 35% do rendimento mensal de uma família.
Estas condições fazem com que, apesar de o número de habitações ser suficiente, muitas acabem por permanecer fora do alcance da população. A injustiça é dupla: casas sem moradores e moradores sem casa.
Caminhos para desbloquear o mercado
A existência de 250 mil casas prontas a habitar deveria ser vista como uma oportunidade estratégica para o país. Medidas como a simplificação dos mecanismos de heranças, incentivos fiscais para a disponibilização de imóveis em arrendamento, maior transparência no mercado e reforço do parque público poderiam ajudar a libertar estas casas.
Ao mesmo tempo, seria necessário criar confiança entre proprietários e entidades públicas, garantindo segurança jurídica e fiscal. A aposta em programas de mediação imobiliária poderia acelerar processos e trazer rapidamente para o mercado casas que já estão em condições de ser habitadas.
Conclusão: um recurso por explorar
Portugal não sofre de uma carência estrutural de habitação, mas sim de um bloqueio na oferta. As casas prontas a habitar representam um recurso desperdiçado que, se devidamente aproveitado, poderia reduzir significativamente os preços do arrendamento e da compra, aliviar a pressão nos centros urbanos e devolver vitalidade a inúmeras zonas.
O futuro da habitação em Portugal dependerá da capacidade de transformar este património inativo em soluções reais para quem procura um lar. Mais do que construir novas casas, é urgente usar as que já existem e que, por inércia ou especulação, permanecem vazias.